O tempo livre e as crianças

Todos os dias ouço crianças com queixas relativas à inexistência de algo interessante para fazer, tudo é uma grande “seca” a menos que exista um qualquer gadget por perto. E se, por um lado, as férias são tão almejadas, por outro, constituem-se como um período de grandes vazios.

Gostaria de resumir aqui uma história da Sophie Carquain (inCent histoires du soir, 2000) que me parece traduzir o que se passa com muitas crianças. Esta história chama-se “A criança-que-se-aborrece e a criança-que-brinca-sozinha” e começa assim:

“Era uma vez uma criança que se aborrecia. Aborrecia-se no cinema, na ginástica, na bicicleta, nas férias, na escola, a trincar um biscoito, a chupar um gelado, a jogar xadrez, dominó, Playmobil… Por isso lhe chamavam a criança-que-se-aborrece. A criança-que-se-aborrece ficava num canto do quarto, com os braços cruzados, a suspirar o dia todo. De vez em quando, divertia-se um quarto de segundo: quando um robô glutão devorava um exército de seiscentos homens; quando um tiranossauro perseguia, com os dentes todos arreganhados, um dinossauro; quando traziam o seu bolo de aniversário cheio de velinhas acesas; sempre que rasgava o papel de embrulho dos presentes de Natal. Eram momentos em que o seu coração batia mais forte. Durante um minuto, não se aborrecia. Mas, logo voltava a suspirar.

— Como este robô glutão me aborrece…. Como estes animais me enfadam…. Quando é o meu próximo aniversário?”.

Esta é uma história que se repete inúmeras  vezes, um pouco por todo o lado. Crianças que têm necessidade de novidades constantes, que não sabem ou não conseguem brincar sozinhas, dependentes de uma estrutura ou guião para não se sentirem perdidas. Muitas vezes parecem ter “enclausurada” a sua criatividade num baú e não encontram a chave. Também elas ficam reféns nesse baú, sem possibilidades de se expressarem, de fantasiar, imaginar ou criar.

Como todas as histórias, esta também tem uma segunda e uma terceira parte:

“Um dia, porém, aconteceu algo surpreendente. Quando estava sentada no banco de uma praça, com os braços cruzados, a criança-que-se-aborrece reparou num rapazinho que brincava na relva. Era a criança-que-brinca-sozinha. Os olhos dela brilhavam e tinha um sorriso no canto do lábio. O mais interessante é que brincava com uma caixa vazia. A criança-que-se-aborrece aproximou-se. — O que estás a fazer? — perguntou, num tom desdenhoso. — Estou a brincar, estou a divertir-me, não vês?— É impossível — tornou a outra, num tom de voz enervado. — Ninguém se diverte com uma caixa vazia. A criança-que-brinca-sozinha não disse nada e voltou a abrir a caixinha. — Isso não passa de uma caixa de queijo velha e vazia! Uma caixa nojenta! — choramingou a criança-que-se-aborrece. — Talvez seja uma caixa velha e nojenta, mas não está vazia — continuou a outra. — Há sete elefantes a guardá-la, porque os leões vão chegar à Savana. Fechou a caixa. — Fechei-a para que eles não fujam. Agora são meus prisioneiros. Também lá estão dentro dez pelicanos. Estás a vê-los com o bico comprido e a sua pequena bolsa? Nunca conseguirás adivinhar tudo o que esta bolsa contém: um cobertorzinho de lã para o Inverno, um despertador para se levantarem de manhã, e três pelicanos bebés! A criança-que-brinca-sozinha disse para consigo: — Uma bolsa assim é muito prática. Os pelicanos têm uma bolsa, eu tenho uma caixa. Vou fechá-la agora, porque ouço um exército de leões a aproximar-se. E revirou os olhos. — Os leões adoram os pelicanos. — Ai, sim? — perguntou a criança-que-se-aborrece. — Sabia que comiam gazelas, veados e girafas. Mas nunca li que comiam pelicanos…. — Eu também não, mas não é difícil de imaginar — tornou a outra. — Sou eu que invento tudo isto. É preciso proteger os pelicanos a todo o custo. E fechou a caixa. — Enganei-os bem! Os leões já se foram embora. E pôs-se a rir sozinha. — Se abrir agora a caixa, voarão para o céu. Olha! Já estão a sobrevoar o Oceano, com os bebés dentro da bolsa. Estão todos contentes! E a criança-que-se-aborrece ergueu a cabeça, maravilhada, embora não visse nada. — Dentro da minha caixa, ainda há muitas outras histórias — continuou a criança-que-brinca-sozinha. — Há três milhões de ideias, cento e cinquenta biliões de pelicanos! E os seus olhos brilhavam. A criança-que-se-aborrece sorriu. Compreendeu que, com caixa ou sem caixa, havia milhões de brinquedos dentro da cabeça de uma criança. Percebeu isto tão bem que disse à outra: — Acho que a tua caixa funciona como a tua cabeça. Podes abri-la e podes fechá-la, e fazes o que queres com ela! — Mas tu podes fazer o mesmo! — encorajou-a a criança-que-brinca-sozinha. — Só precisas de uns pozinhos mágicos. E, com muita delicadeza, virou a caixa de pernas para o ar, fez um passe de magia, e reabriu-a. — Dá-me a tua mão — pediu. A outra assim fez. — Estás a ver, aqui estão uns pozinhos da minha caixa mágica. Deita-os na tua caixa, esperas um dia e uma noite, e aparecem-te fadas, reis, salteadores, dinossauros, tudo o que tu quiseres. Nunca mais te sentirás aborrecida. E começaram as duas a rir e a inventar histórias”.

É isto! Todas as crianças têm milhões de brinquedos dentro da sua cabeça e se conseguirem partilhar com outras crianças esses brinquedos duplicam e triplicam…

Esta missão será facilitada se as crianças tiverem oportunidade de olhar, sentir, provar, ouvir e experimentar muitas e variadas experiências mas também se lhes for dada a oportunidade de gerirem o seu próprio tempo de lazer livremente, sem objetivos específicos, sem metas ou competências a melhorar, com a corda solta para a imaginação voar…

Dra Lídia Martins

Técnica Superior de Reabilitação Psicomotora

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